quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

6/18/2006 10:25:00 AM

TROCADO NO HOSPITAL

Pintura de Francis Bacon


Fabrício Carpinejar





Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança parte dessa suspeita, que é uma curiosidade do amor. Eu culpava o mundo por ter nascido, nada melhor do que começar pelos pais. O temor de ser rejeitado faz com que a gente rejeite antes. Para não sofrer tanto depois, antecipa-se o pagamento do sofrimento. Era bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, cabelos cacheados, ou Carla, com um rostinho esculpido economicamente. Minha feição afundava a cada dia como uma bacia para pisar as uvas. Só há uma fotografia minha dos nove meses, os olhos como um saco informe de bolas de gude. O pescoço não conseguia sustentar a cabeça erguida, caindo levemente para a esquerda. Estava com um tip-top branco, que acentuava o caráter de assombração.


Mas não tirei a idéia do nada. Uma tia, extremamente maldosa, narrava que nasci cheio de bolinhas na face. E, de repente, apareceu uma criança desprovida de marcas. O desaparecimento imediato dos sinais perturbava a mim e a minha tia. Ela me convenceu que meu lugar na casa havia sido emprestado. Pensei várias vezes - por mais que o ambiente do meu lar fosse amoroso - em arrumar uma malinha e fugir, à procura de meu verdadeiro paradeiro. Um dia, cumpri a promessa, andei dez quarteirões chorando e parei numa pracinha para me concentrar no choro. Queria que alguém corresse atrás de mim e me buscasse. Ninguém veio. Anoiteceu e voltei fracassado para casa, sem revelar a minha intenção. A mãe deduziu que brincava com amigos e não reparou na gravidade do regresso. Ralhou apenas: "vá tomar banho, que já está na mesa". Desejava fugir para não fugir. Um teste de saudade, devidamente reprovado.


Na época, ensaiei alguns bilhetes de despedida. A sorte é que nunca fiquei satisfeito com o que escrevia. Pelo mesmo motivo, não irei me matar. Meu perfeccionismo impede o suicídio, certo da minha insatisfação com a redação do bilhete final. Imagina morrer e deixar um erro de português no último texto? Ainda vão falar: o cara nem sabia escrever... Prefiro permanecer vivo a carregar o analfabetismo póstumo.


Fui adotado e os pais me protegiam da origem bastarda - acreditava nisso. Muito revisei minha certidão de nascimento, mexi nos papéis secretos da escrivaninha paterna, na carteira de vacina, faltou-me sempre a prova. Desde cedo, investiguei a minha vida como uma fraude. Não provei falsidade alguma, tampouco atestei sua veracidade.


Impaciente com a minha teimosia, a mãe decidiu terminar de vez com a desconfiança. Sentou-me em sua frente na mesa da cozinha e, como garfos a conchar macarrão, retirou uma fotografia de um envelope pardo. Olhei, olhei, olhei assustado. Era a minha cara, entretanto, não era eu.


- É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família.


Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que não iria mais contestar, resmunguei num tom bíblico:


- Coitado, ele também foi trocado.

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