quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

2/2/2004 07:57:26 AM

UMA TRISTEZA QUE ACONTECE ALEGREMENTE





Fabrício Carpinejar


Tenho amigos que são tristemente alegres. Eles não conseguiram anular uma tristeza. Ela ficou a endividar o riso. Permanece como uma cicatriz, uma queimadura. Não apaga a água ou as alegrias. Convive junto, sempre. Não arreda pé da sala. Não permite ao rosto se contorcer de exultação. O riso é uma vez por lado, contido, como remos sincronizados. Como se o riso fosse apenas um entristecer dos dentes. Há amigos que pensam nessa tristeza fazendo novas coisas. E a tristeza pensa neles nas horas mais impróprias. Não há como aplacar esse sentimento - ao mesmo tempo - miúdo para ser reparado e extraviado para ser dito. Não é benigno ou maligno. Não é doença, muito menos saúde. É algo que se aprendeu quando não se prestava atenção. Uma tristeza assobiada, sem que conheça o alfabeto para se confessar. Uma tristeza suave, como uma criança que senta diante da máquina de lavar com os mesmos modos de uma televisão. Uma tristeza sem lugar para ir, que se acostumou a personalidade, que seca a louça de manhã. Uma tristeza que é charme, mas não chega a ser simpatia, que convida para a conversa, mas não tem o que falar. Uma tristeza calma, alimentada, que se contenta com pouco, que senta nos degraus da escada e divide os latidos da quadra em casas. Uma tristeza quase subterrânea, um rádio ligado entre duas estações. Não se mistura, não se guarda. Podia ser nostalgia, podia ser saudade, nada é de ambas por não se distanciar. Uma tristeza que arruma a cama e não se deita, envelopa as cartas e não escreve. Uma tristeza que é tremor de frio, um suor desajeitado, uma fisgada no braço, que movimenta os ouvidos involuntariamente. Uma tristeza tímida, não envergonhada. Uma tristeza sábia, que não é excluída com uma outra tristeza maior. Uma fogueira que a pá de terra não abaixa. Uma tristeza que veio de algum estalo, fissura, de um amor sacrificado, de uma amizade desmentida, de uma morte prematura, de uma viagem adiada. Medo de não ter vivido o bastante, covardia de não viver como se deve. Uma tristeza experiente, que não se repete. Que não salva, porém conforta. Que torna a feição séria como quem se escuta. Uma tristeza sem par para dançar. Isolada demais para ser lembrança. Antiga demais para ser futuro. Uma tristeza que acontece alegremente, mas ainda assim tristeza.

4 comentários:

  1. Dá pra tocar nessa tristeza quando um amigo acaba de contar uma história, que pode ser triste, e pousa o olhar no horizonte, com um sorisso. Esse sorriso é ele mesmo triste, é de quem já não leva mais tão a sério a história que acaba de contar. E mudamos de assunto. É essa a tristeza de que você falava? Coloquei o rádio entre uma estação e outra e foi essa a música que ouvi.

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  2. Há os que dramatizam a tristeza e há os que a despem do drama e ficam só com o matiz. Um risco de tom pastel contra um fundo excessivamente vibrante, permitindo ternuras. Um efeito de transparência sobre a gargalhada histérica da vida. Sua cor é crua como toda nudez. Pele da alma revestindo o rosto.Avesso da máscara.É quando melhor se beija o rosto do amigo, com a cumplicidade dos olhos.

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  3. Você realmente escreves mto bem
    Bjoos

    Paty

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