quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

4/29/2005 11:43:28 AM

O PRECIPÍCIO DO PECADO

Gravura de George Grosz


Fabrício Carpinejar





Tenho desvio de septo. Operei as adenóides em hospital inclinado de morro. Foi esquisito e lúbrico ficar com um camisolão aos 7 anos, com a bunda de fora. Os pais não entraram comigo na sala de cirurgia. Calcei pantufas enormes. Lembrava uma criança brincando com as roupas do pai, zanzando com as gravatas nos joelhos e esquiando com os sapatos paternos pelo corredor. Não me recordo de detalhes, vi o refletor aceso e a anestesia adoçando o sangue até adormecer. Acredito que os médicos quebraram meu nariz na operação. Antes não era tão torto ou talvez tenha crescido espontaneamente, apesar de não entender como ele cresceu mais do que a feição. Minha vida prefere suspeitas do que curiosidades. Adorava palavrão. Palavrão não tem sermão. Entre o palavrão e a homenagem, escolho o primeiro que não tem discurso.


Todos os meus complexos residem no fato de que fui obrigado pela fonoaudióloga a usar bico. Precisava expandir o céu da boca estreito e a arcada dentária minúscula. Tive boca de anão em um rosto de jogador de basquete. Dez anos e usava bico, a recuperar o tempo perdido e a ausência de mamadeiras e chupetas na infância. Mamava o ar enquanto os colegas ostentavam aparelhos nos dentes. Como poderia ser normal usando bico? Ciúme das instalações elétricas na boca. Meu bico, insosso bico, me emprestava deficiências. Ioiô dos lábios. Virei a boneca predileta da professora: falava e fazia xixi.


Mas gostava mesmo do colo de minha tia gorda. Vestido estampado, quadriculado, xadrez. Um sofá. Eu me esparramava no colo dela e assistia tevê. Minha tia era mais fofa do que colchão d' água, apresentava braços longos de poltrona, fazia barulhos divertidos com o estômago e eu não corria o risco de cair. Uma amiga da tia, a vizinha Isolda gritava, urrava de noite, arfava "Ah Ah Ah Meus Deus". Perguntava ao pai se ele iria tomar alguma providência e parar com aquela briga. O pai argumentava com a cabeça: "não é nada". O irmão mais velho debochou que ela gozava. Pensei que gozar significasse rir. Não entendia a indiferença das diferenças. Não é que uma manhã ela foi encontrada morta depois de ser abandonada pelo marido. Olhei bem severo ao meu pai e não o perdoei: "eu te avisei!".


Minha mãe não rezava missa para morto. Rezava missa para vivo, defendia que o vivo ainda tinha salvação. Ela se antecipava de rezas. "Morto tá resolvido, os vivos que podem cair no precipício do pecado". Durante noites, sonhei que caía no precipício do pecado. Minha vertigem surgiu dessa expressão. Peco com medo de altura. Os joelhos de minha prima iniciavam o precipício do pecado. A mãe nunca me contou, deve ter rezado umas quantas missas em meu nome. Fui coroinha involuntário.


Um dia não achava o cadarço para jogar futebol. Amarrei o tênis com o terço. Fiz três gols e quebrei a perna. A alegria custa caro. Ao me defender dos zagueiros, o terço perdeu três dentes na briga: desfalcado de duas pedras da ave-maria e uma pedra do pai-nosso. Felizmente, as orações foram abreviadas em casa. Meus amigos deixaram sua assinatura no gesso e esqueceram o bico. Quando melhorei da perna, sumiu a atenção dos amigos. Minha vocação é ser uma parede pichada.


Um dos meus horrores foi descobrir que a barata sobreviveria à bomba atômica. Não entrava na minha cabeça que um bichinho esmagado por uma sola de chinelo agüentaria a radiação. A barata tem um jeito de tevê portátil, com antenas maiores do que as patas. O homem é uma barata entre Deus e os anjos. Não desaparece e, de vez em quando, arruma asas. Barata voadora é como santo levitando. Os santos se isolam para ficar a sós com os demônios - não deixa de ser um encontro amoroso. Tremo ao ouvir histórias de quem saiu de seu corpo. Se eu pudesse sair de meu corpo um pouquinho, não voltava. Não desperdiçaria essa chance. O corpo é uma penitenciária de alto risco, cercada do alto mar da respiração. Tentei me hipnotizar e o relógio parou. Também não dá para se hipnotizar com relógio de corda! Os pais avisavam que me parecia com o avô. Cheguei ao avô e pedi com urgência que escrevesse sua vida para me poupar trabalho. Não encaminhou nenhuma receita e se ofendeu com a proposta e comparação. Na verdade, eu me considero mais rascunho do meu filho do que o original de meu avô. Estou atrasado de traços. Meu pai sorria quando diziam que ele estava bem conservado. Falar que alguém está conservado é elogiar sua velhice, não sua juventude. Que diga que estou acabado, daí é elogiar a juventude.


(Da minha coluna na revista Idéias, edição de abril de 2005, da Travessa dos Editores)

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