quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

12/3/2006 09:52:48 PM

UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES

Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos


Fabrício Carpinejar*

Especial para o Estado





Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (O Tango Fantasma e Diana Caçadora), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.


Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança Caim - Sagrados Laços Frouxos.


Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento.


O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família.


Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.


Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser.


As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados.


As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.


A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.


Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.


Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.


Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."


Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.


* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)


(SERVIÇO)

Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90



Publicado em O Estado de São Paulo, Caderno 2/Cultura, 3/12/06

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