quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

9/7/2004 10:43:18 AM

MEU PRIMEIRO DIA SEM O LEANDRO

Gravura de Anselm Kiefer


Fabrício Carpinejar


"Porto Alegre - Um Uno saiu da pista e invadiu o canteiro central da freeway (BR-290), no km 87, próximo à Avenida Assis Brasil, por volta das 22h30min. O motorista Leandro Mohr, 32 anos, morreu na madrugada de ontem no Hospital de Pronto Socorro. Ele teria tido um mal súbito e perdido o controle do automóvel."

Jornal Zero Hora


"A Dor não tem nada a ver com tuas características individuais. A Dor é uma pessoa que te confronta."

"A Dor contemporiza, ilumina e aquece, gira igual sobre bons e maus. Põe frutos e os madura. Mas não os colhe."


Maria Carpi, Nos Gerais da Dor





Se eu tenho uma dor, eu não a abandono, não fujo dela. Eu quero alfabetizá-la, senão ela corrói as outras lembranças, se adona do que não é dela, se apossa das alegrias que a antecederam e das alegrias que estavam por chegar. Mas há dores analfabetas, arrivistas, que nos mostram o quanto a própria palavra pode ser fútil e desnecessária, o quanto que os planos podem nos contrariar, o quanto somos inexplicavelmente insignificantes. São poucas as vezes em minha vida em que renunciei a fala. Talvez em um aniversário em que ninguém se lembrou de mim. Talvez quando perdi minha avó e tive um sonho anterior em que ela me entregava uma carta. Mas eu ainda optava por não dizer nada. Tinha condições de terminar o jejum a qualquer momento. O pior é quando não se consegue falar mesmo tentando, não se fala por necessidade, ouso abrir a boca e não sai a corda da cisterna, o balde da chuva, o rumor da porta. Todo o corpo congestionado, trancado em tremores e estalos. Nada. Leandro morreu. Um amigo que cursava o mestrado em Letras Inglesas na Universidade Federal de Santa Catarina. Sua mulher é uma de minhas grandes amigas, Adriana, que trabalhou comigo na Unisinos. Ele teve uma parada cardíaca enquanto dirigia. 32 anos, a minha idade. Escrevo por extenso para a idade parecer mais longa: trinta e dois anos. Adri largou tudo para acompanhá-lo no último mês em Florianópolis, arrumou emprego por lá, se transferiu para ficar perto dele. Não sei se acredito em profecia, porém ela teve. Acompanhava Leandro na hora do acidente. Não sei quais foram suas últimas palavras, as últimas palavras não importam, eu pensava que importavam até hoje, porém não importam, sinceramente o que vale é o que não foi dito e que a Adriana compreendeu. Adriana, no meio da loucura do luto, chegou a dizer com uma serenidade que só o amor prepara: "ele morreu feliz, o mês que passamos juntos foi um dos mais felizes, não morreu sozinho". Ela me abraçou com tanta dor, que volto a chorar ao afrouxar o abraço. Não havia osso em meu rosto. Não havia algo que possa depois suavizar na forma de cipreste ou figueira. Havia um fogo rude, querendo apenas deixar sua cinza, carvão, pedra de vento, asa calada de pedra. O pássaro não é somente sua asa. Uma comoção sem fôlego para responder, sem parentes nas árvores. Corpos prensados, bem antes do nascimento da água. Casulo trincado em brasas. O que ela me abraçou ficou ali. Ela abraçou sua dor, eu não existia. Ela atravessou sua dor, eu não a percorri. Ela deve ter recolhido os sapatos dele na estrada, reunido as roupas, para não deixar nada fora de sua morte. O pulmão dela deve ter trocado de turno com o coração. Quando entrou na sala do velório, com aquelas lâmpadas e coroa de flores, aquele lustre que não correspondia ao despojamento do resto, ela gritou sem adjetivos. Um grito agudo, intransponível. Fiquei de fora naquele momento. Entrei no grito dela. E comecei a pensar sem querer pensar o que eu faria em seu lugar. E não consegui. Não interrompi as calhas, não espremi as frutas. Fracassei em chegar onde o homem não há. Eu não consegui te acompanhar, Adriana, desculpa, eu não consegui chegar em tua dor ao menos para alfabetizá-la. É como se a poesia fosse lenta demais. E não entendi Deus ou o seu sentido de dar o que nem queremos, de tirar o que nem sabíamos que tínhamos. O grito dela virou um ouvido. Um ouvido. E o pai do Leandro e a mãe do Leandro, à beira do leito, não reconheceram o filho, que sempre andava de bonés, de bermudas folgadas, com um figurino praiano, solto, jovem. E velaram o corpo do seu filho, os lábios secos e pálidos, a falta maior do que a falta, como se fosse o corpo do melhor amigo do filho. O Leandro no caixão não era o Leandro, tão pequeno, encolhido, sem o peso de suas braçadas pelo ar, sem a arrogância do sopro, sem a generosidade do sopro. A morte nos devolve a estranheza. Eu desejei embalá-lo no colo para acordá-lo do medo. Vou coletando suas frases, com receio de alterá-las, marisco guardando o mar com os cuidados de quem segura as antenas de um inseto. Deixo uma cama desocupada em mim, um armário desocupado em mim, um riso que não vai conseguir ultrapassar a outra metade que a dor ocupou. É meu primeiro dia sem o Leandro. O primeiro dia do mundo sem o Leandro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário