quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

7/20/2004 11:54:07 AM

COMPRO E VENDO SINÔNIMOS


Fabrício Carpinejar


Linguagem é para despistar e confundir ou não haveria tantos sinônimos procurando emprego. Eu trocava o erre pelo elê, suspirava rápido para não ser identificado, corria na contramão respiratória, como um disco brincando em outra rotação. Mastigava errado certas palavras, obrigando-me a caçar desesperadamente sinônimos para me salvar da pronúncia torta, desavisada e truncada. Meu vocabulário foi a necessidade de me esconder, não a escolha de me mostrar. A gente, na verdade, fala para não dizer o que pensa. Entre a fala e o pensar, tem-se tempo suficiente para inventar uma mentira. A infância do idioma antecipa o que iremos fazer depois. Eu serei o que não percebi. Há remédios que não posso comprar até hoje. No sufoco, peço qualquer similar ou genérico. Como sei que vou errar, erro de qualquer jeito. Um exemplo é "cataflan". O som ferruginoso do efê com elê desmaia o céu da boca e solto um erre intruso, sem necessidade. Juro que me esforço como um estrangeiro aprendendo o português e não adianta. Minha filha espera que um dia possa dizer "arara" e ela já tem dez anos de paciência. "Rosebud" de Cidadão Kane será, em meu caso, "arara". É uma palavra muito suave para minha pressa. No zoológico, eu via arara e apontava para minha pequena: "olha o papagaio!". Acho que só ajudei minha a filha a confundir as penas. Na época, preferia parecer burro do que língua presa. A ingenuidade nunca termina em inocência.


Dinheiro não é todo igual, é diferente dependendo da urgência. E quando falta é mais dinheiro do que o dinheiro. Se eu falo "pilas" estou querendo falar que é menos do que "paus" que é menos do que "mangos" que é menos do que "grana". "Pilas" é usado para diminuir o valor e avisar que é barato. "Paus" funciona como uma dicção neutra, seca, quando acontece do negócio não ter nenhuma vantagem e desvantagem. "Mangos" exalta um tom de denúncia e desfavorecimento. Um atestado de pirataria ao comprador. Grana dá uma idéia de recepção, não de compra. Eu digo grana quando vou receber uma bolada e não terei que pagar. Grana é prêmio, verba inesperada, surpresa. Quem usa cruzeiros, apenas quer dizer sua idade. Real passa a ser apenas verbalizado no banco, onde o salário é menor do que a esperança de um dicionário.

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