quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

6/27/2005 04:45:59 PM

PUNHADO DE CAFÉ

Pintura de Paul Klee


Fabrício Carpinejar





Não sou de pacotes fechados, de peso definido, que se pegam na estante e se gastam automaticamente. Ainda sou descendente das sacas e dos potes, onde se comprava café e farinha a granel. Separava o café como quem completa a sombra. Emagrecia os dedos. No bolso, dinheiro trocado, esparso. Se ultrapassasse o valor, entregava de volta. Descobria-se na concha o que se precisava. Decidia-se a vida no punhado. Não se levava mais ou menos. Queria o suficiente, para não sobrar depois da sobra. Meus olhos são a granel. Meus braços são a granel. Meus pés são a granel. Devolvem o que não usaram. Os armazéns de esquina tinham portas de ferro e balanças indulgentes, com a marcação de mão. Os números quebrados me tornavam inteiro. Nem 1kg, nem meio quilo. Tudo se resolvia em gramas, minha vida feita intensamente de cada grama. Esperava ansioso acertar a cota. Ir no armazém era mexer por dentro de uma ampulheta, dentro do vidro. Segurava a areia quente no momento da descida. Ir no armazém era tão importante quanto comprar uma passagem na rodoviária. Despertava cedo para ganhar preferência de conversa no balcão. Não mudei. Escolho a paixão a granel, a amizade a granel, a fidelidade a granel. Meus filhos, minha mulher estão na velocidade das unhas. Meço minha fome, o que empregarei no almoço, o que ficará para a janta. Há uma única forma de doer, mas tantas formas de enfrentar a dor sem se rebaixar a ela. O sofrimento é mais egoísta do que o prazer. Não admitimos que o outro sofra em nosso lugar. A gente só se desentende depois de se conhecer. Sou lento, demora muito tempo para um sentimento em mim virar pensamento. Meus pais me ameaçavam: "se queres sair de casa, agüente as conseqüências". Fui saudável para suportá-las. Minha memória não dorme sozinha. Não temo a solidão. Em último caso, eu me acompanho. Dividir o passado com quem amo não deixa de ser um modo de alterá-lo.

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