quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

6/12/2004 07:49:41 AM

JORNAL ZERO HORA:


Porto Alegre, 12/6/04. Edição nº 14174

Reportagem especial - páginas 4 e 5


Comportamento


O DIA DE CHAMAR AMOR PELO NOME


O desafio dos poetas Fabrício Carpinejar e Celia Maria Maciel instiga um grupo de 16 garotos infratores em uma biblioteca e sete mulheres em um salão de beleza: dá para fazer declaração de amor sem a palavra amor?


MOISÉS MENDES

Foto de José Doval




Tarefa: poetas pediram mensagens de internos a suas namoradas, mas eles não podiam escrever a palavra amor





Guris sentados em volta da mesa, mãos cruzadas agarrando a inquietação. Vão falar de amor em bilhetes para as namoradas. São desafiados pela poeta Celia Maria Maciel: - Viemos aqui para falar de amor, mas sem dizer amor.


E dá? O poeta Fabrício Carpinejar faz silêncio com um sim. Os 16 guris se espiam. Dá? Num livro que talvez não esteja naquela biblioteca, outra poeta, Adélia Prado, diz que não se fala assim impunemente de amor, porque amor é palavra de luxo. Então, que se pense mas não se fale. Os desafiados são adolescentes infratores recolhidos ao Centro de Internação Provisória Carlos Santos, da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), na Avenida Padre Cacique, em Porto Alegre.


São espinhentos de 14 a 17 anos. Assaltaram, meteram-se com drogas, esfaquearam, tropeçaram em desvios farpados. Estão ali para conversar com Celia e Carpinejar porque são os que mais passam pela porta sempre aberta da Biblioteca Dona Margarida. Não rastreiam livros com palavras que reforcem rudezas.


- Eles lêem poesia - diz a coordenadora da biblioteca, a monitora Jeanete Amaral Harms.


Jeanete ciceroneia os dois poetas convidados com a monitora Adriana Telles, as técnicas em educação Zoraide Testa e Marli Kramer e a psicóloga Mariana Puggina. No pátio, outros adolescentes jogam vôlei ou escoram no joelho o queixo, um sonho ou alguma aflição. São 180 guris que estão ali de passagem à espera das medidas socioeducativas de um juiz. Poderão ficar numa das casas da Fase por até três anos.


Os 16 sentados na biblioteca lêem e escrevem muito. Quietos, ouvem Celia soletrar textos de Carpinejar. Estão diante de um dos grandes poetas brasileiros, que exalta a própria feiura, "porque é bonito ser feio'', e diz coisas assim:


- Ninguém ama com bons modos.


Ou assim:


- Ao andar contigo, eu me invejava.


Ou assim:


- Sua infância morreu separada do resto dos anos.


Os guris acompanham com os olhos recortes de papel com poemas de Carpinejar que zanzam na mesa. Celia lê trechos, instiga.


- A imaginação desloca lembranças - diz Celia.


E fala de amor:


- A gente cai da bicicleta, erra, aprende. No amor, a gente leva fora para aprender a amar.


Quem dos 16 já disse "eu te amo''? Todos, ou quase todos, erguem a mão. Carpinejar, 31 anos, tira os sapatos e põe sobre a mesa. Sapatos desemparceirados, um velho, outro mais novo. Um guri balbucia:


- É doido.


Celia pede que falem, ninguém fala. Querem escrever. Que escrevam em cartões azuis, amarelos, laranjas, verdes. O guri esfrega o boné na cabeça e pede ajuda para quem está ao lado:


- Vamos trocar uma idéia?


Trocam-se idéias, mas a maioria enterra o olho no papel em branco. Em 15 minutos, os cartões estão garatujados de letras miúdas, redondas, tortas, espichadas. Pronto. Depois, o escritor os presenteia com exemplares de seu livro mais recente, Cinco Marias (Bertrand Brasil, 124 páginas) e agendas com poesias. Abraçam-se, vão embora. Lápis e canetas ficam sobre a mesa. Nos quartos, são armas.


No pátio, os poetas da Fase formam fila dupla com a turma que jogava bola. Às 11h, voltam para os alojamentos. Um a um, são submetidos a uma revista mecânica, antes de sumir no corredor. Um monitor grita:


- Tira o boné, abaixa a calcinha.


A gurizada está de bermudas, calções, calças, abrigos. Se não há outro nome para amor, palavra de luxo que ninguém conseguiu evitar nos bilhetes reproduzidos nesta página, que outro nome se daria para humilhação?


- Abaixa a calcinha - o monitor repete, e o guri abaixa o calção e expõe a cueca.


Tudo isso foi na última terça-feira. Depois dos afagos da poesia, o choque do embrutecimento, um atrás do outro.


Hoje, Dia dos Namorados, os bilhetes serão abertos na visita das gurias que aparecerem. Os nomes delas: Fernanda, Daiane, Jenifer, Tatiana, Joice, Karine, Camila, Márcia, Daniele, Patrícia, Tatiane, Marciane, Gisele, Elisandra e Paola.


Sem namorada, um menino escreveu para a mãe, Angelina.


Os nomes deles? A lei manda que se preserve a identidade de adolescentes infratores, poetas ou não. Por enquanto, seus nomes estão só ali, separados do resto dos outros nomes de gente e de coisas.


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Se amar é ficar bobo, não há espaço de maior bobeira dita, cochichada ou chorada do que um salão de beleza. Fala-se do outro, do que não está ali. Cuida-se dos cabelos, das unhas, da pele e se ganha de graça troca de confidências, terapias informais, tudo no cara a cara, nos rostos que se vêem pelo espelho. Zero Hora levou para o salão Paulo Alvarêz Cabeleireiros, na Avenida Independência, em Porto Alegre, o mesmo desafio lançado pelos poetas Fabrício Carpinejar e Celia Maria Maciel aos adolescentes recolhidos a uma casa da Fase. Amor - "palavra de luxo'', segundo Adélia Prado, ou "palavra essencial'', segundo Carlos Drummond de Andrade - pode ser dispensado numa declaração de, digamos, amor? Leia nesta página os depoimentos de quem fala, ouve, silencia, aconselha - clientes, cabeleireiras e manicures - e o que essas mulheres dirão amanhã para seus namorados.


Primeiro, o olhar


Rose Alvarêz, 50 anos, cuida dos cabelos da psicóloga Rosane Levenfus, 40 anos. A palavra amor tem para Rose a relevância que não tem para Rosane. A psicóloga é casada há 12 anos com o engenheiro David Levenfus, o Gordo. Têm uma filha, Sílvia, seis anos. Quem disse pela primeira vez "eu te amo''? Rosane acha que foi ela, mas não lembra direito. Na última e rara vez dos últimos meses, foi ela quem disse, ao receber flores no Dia das Mães.


- Tem muita gente que não usa a palavra amor nunca. O amor se expressa em primeiro lugar no olhar, só depois nas palavras.


Rose tem um amor mais esparramado. Há dois anos e meio mora com o técnico em manutenção Lecio, 40 anos. Conheceram-se numa viagem para Nonoai. O ônibus quebrou, todo mundo desceu, os dois ficaram de conversa no acostamento.


- Bateu no olho - ela relembra.


Bateu tanto que Lecio se derramou ali mesmo:


- Tu és a mulher da minha vida.


No segundo encontro, ele foi adiante:


- Te amo. Todos os dias diz "eu te amo''. Todos os dias ela diz: "Eu também''. Se um esquece, o outro cobra:


- Hoje tu não disseste que me ama.


Não banaliza? Ela ama essa banalização.


- Passamos o dia rindo.


Uma palavra difícil


Laura Laranjeira, 19 anos, estudante de cursinho, enfeita-se para o Dia dos Namorados. Preparou uma dúzia de surpresas para Thiago, 19 anos, o único homem de quem ouviu até agora "eu te amo¿¿. Laura já ficou cinco dias, no máximo, sem dizer "eu te amo". No começo, acha que se apaixonou:


- Pela primeira vez senti o que nunca sentira antes.


Estão namorando há um ano e dois meses. Agora, acha que o que sente é amor. Vai abarrotar o guri de presentes. Estes podem ser revelados. De manhã bem cedo, vai até sua casa acordá-lo com uma cesta de café. Levará um arranjo de flores e um ursinho de pelúcia. Depois, vão jantar no Sheraton. E o resto - e que resto - sim é segredo.


Maria do Carmo, 48 anos, cuida das mãos de Laura. Há dois anos, está no terceiro casamento. Vive com o mecânico João Carlos Figueiredo, 37 anos. Vai presenteá-lo com um par de sapatos, mas sem "eu te amo".


- Não precisa dizer.


Vanda Rosa e Silva, 47 anos, cuida dos pés de Laura. Está casada há 30 anos com o supervisor de produção Luís Pedro Querotti, 52 anos. Têm quatro filhos: Marcel, 27 anos, Gustavo, 26, Michele, 22, e Gisele, 15. No tempo de namoro, era ele quem mais dizia "eu te amo". Vanda faz as contas: há uns dois anos a frase não é suspirada no ouvido do marido.


- Tenho certa dificuldade de dizer esta palavra. Mas namoramos, ficamos no sofá.


Hoje, a palavra difícil poderá ser dita? Ela pensa, trava:


- Vou dizer: "Parabéns pelo nosso dia".


O beijo diz mais


A psicóloga Cláudia Dias, 37 anos, só vê o marido, Rogério, 40 anos, nos fins de semana. O geólogo trabalha de segunda a sexta nas obras da rodovia Rota do Sol. Estão casados há 15 anos, têm um filho, Felipe, de 11 anos. Mesmo com tão pouco tempo juntos, Cláudia não vê necessidade de dizer o que sente com palavras:


- Um beijo ou um olhar podem dizer muito mais. O suporte para o outro ou para o filho é dado muito mais pelo olhar.


E hoje, ela vai dizer "eu te amo"? Ou espera ouvir a frase de Rogério?


- Não pensei nisso.


Cláudia também não vai dar presentes. Talvez saiam para jantar ou, quem sabe, se refugiem num motel.


Patrícia Lorenzini, 31 anos, cuida dos cabelos de Cláudia. Vive há 10 meses com o técnico em informática Danilo da Silva. Quase todos os dias, um deles diz "eu te amo".


- São 10 meses, não é?


Depois disso, declaração de amor vira raridade? Geralmente, sim. Patrícia acha que mexeu com a emoção do rapaz, desamorteceu sentimentos.


- Eu não só digo eu te amo. Eu vibro com as conquistas dele.


Vai dar uma jaqueta e uma camisa de presente. Mas não espera nada de mimo material:


- Ele diz que há muito consumismo. É muito politizado.


( moises.mendes@zerohora.com.br )

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