quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

4/20/2005 11:18:40 AM

NOJO

Gravura de Miró


Fabrício Carpinejar





Não sou enojado, mas há algo que não suporto: casal que se diverte espremendo espinhas. Não sou enjoado, mas não agüento esse fliperama nas costas. A namorada estourando as inflamações com ânimo alterado. Catando uma por uma das bolinhas com a severidade de um corregedor da pele. E ainda festejando cada explosão. Narrando cada explosão. Comentando cada explosão. Espremer espinhas nas costas não é sensual, não é caridoso, não é um momento para se valer no futuro, para contar aos filhos, para subornar no jantar. Espremer espinhas indica uma compulsão materna, de adotar o que deveria ser o namorado. Só falta cortar as unhas dele. Para quê? Não sei. Será que o casal fica emocionado? Não é acupuntura, não é massagem, é caça e depredação. Espremer espinhas é dependência, não independência, é simbiose, não partilha. Os namorados estão no parque estirados ao sol, lagarteando e, ao invés de beijar com o vagar das árvores, a menina se debruça no namorado, se insinua a escrever com apoio das costas e inicia a depuração. Dá-lhe fincar as pontas! As mãos se transformam em esporas, tesouras, punhais. O namorado não nota, porém vira um cavalo na hora, para não dizer outro quadrúpede. Espremer espinhas é viciante como brincadeiras no celular, paciência no computador. Pode vir com uma cartela de pontuação: dez espinhas estouradas valem um jogo completo da Avon, vinte espinhas e se ganha uma máscara facial. Funciona com regras de um jogo, assim como tem gente que se diverte com corrida de cachorros ou briga de galo. "O barulho da erupção é importantíssimo", recomenda os especialistas em espremer espinhas. "Não se pode fazer de cima, trata-se de um suave beliscão", avisa a vencedora do último Torneio Pan-americano de Espremer Espinhas. Fazer em público é muito pior. Será que vão cobrar ingresso? Querem impressionar? Tara de confundir a praça com um imenso banheiro público. Desculpa, mas espremer espinhas não é excitante, não é uma aventura, não traz conforto e idéia de afeto. Espremer espinha é somente espremer espinha. Não há metafísica, poesia, arroubo no gesto. É um atitude individual, assim como limpar os ouvidos, aparar a barba ou depilar as pernas. Essa história de não ter nojo para nada não ajuda o relacionamento. Quem é muito maduro já apodreceu. É bom manter nojo de alguma coisa, seja barata, seja mosca, seja espremer espinha.

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