quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

9/17/2004 09:41:44 AM

A QUINTA PERGUNTA

Gravura de Richard Hamilton


Fabrício Carpinejar





Feio, pernas tortas, língua presa. Mensalmente, eu era submetido a um eletroencefalograma para verificar se havia algum problema mental. O médico me colocava uns bobes meio estranhos e ficava envergonhado Quem usava aquilo era a mãe. A irmã na noite anterior tentou me forçar a colocar um vestido. Pensei que fosse uma conspiração. Não queria ser menina, queria namorar meninas, que não davam a mínima para meu jeito de abacateiro que só serve para doce e vitamina. Eu lia Menino do dedo verde. Não gostava do Pequeno Príncipe porque acreditava ser perfeitamente possível usar como chapéu uma jibóia com elefante dentro. Examinavam-me com mechas elétricas, fios castanhos que nada tinham a ver com o desvario loiro. Quando fui fazer o exame, cogitei a hipótese que o médico caçava piolhos. Não botou neocid, um pó branco que me dava alergia como o giz da escola, isso me confundiu (ao partir para o quadro negro, espirrava freneticamente, até que a professora parou de me chamar). No eletro, ele montou uma arapuca difícil de reconstituir na tapeçaria dos cabelos, jurava que estava sentado em um salão de beleza disfarçado. O que mais gostava na vida era acompanhar o pai no barbeiro e folhear revistas velhas. Meu pai contava sempre a mesma piada ao tio, que ria exatamente igual como da primeira vez. Não sei se era generosidade ou interesse comercial. O beijo de meu pai na terça-feira cheirava a loção pós-barba. Agora não entendia o que eles procuravam em mim. Caracóis, lesmas, insetos? Eu comi um mosquito de boca aberta. Tomei água para descer o comprimido de asas. Durante uma hora, fui descrito por um monitor, que traçava linhas para baixo e para cima. As linhas não pareciam desenho da minha cabeça, além de fugir das cercas da caligrafia. Aquela caneta sem mão desenhava ainda pior que o Pequeno Príncipe. Não me meti para não faltar com educação, já que estava de macacão, roupa de domingo. Quando botava roupa de domingo, participaria de algo importante e me esforçava ao recato e ao silêncio para não sofrer castigos. Eu apanhei quando brinquei com o irmão debaixo da mesa da missa. Eu puxei sem querer a toalha da mesa e o cálice de vinho arrebentou no chão. Arrebentou é modo de dizer. O padre subitamente tingido pela golfada vermelha. Todo mundo gritou: - mataram o padre. O padre estava apenas sujo de Deus. Enquanto escutava o alarido insano, preocupei-me com a idéia de que a roupa não poderia ser lavada. Deus não toma banho. Ou será que luz toma banho? Ninguém me explicava depois da quarta pergunta. A quinta pergunta carecia de resposta do mundo. Podia ser castigo aquele varal entre uma orelha e outra. Esticado como o hamster morto de meu irmão. Duro e cinzento. O médico dizia: não vai doer, é como um raio-x. Já tinha feito raio-x da cabeça. Várias vezes. Entendi que era parente do raio-x. Ele botava chiclete no meu cabelo e a mãe deixava. Desejei ser médico, para usar avental branco e me permitir contrariar a infância. Ao sair do consultório, os pais comentavam que não havia nada, nunca havia nada e eu voltava igual para repetir o ritual. Acabavam tristes porque não encontravam explicação para minhas vontades de terreno baldio. Eu admirava a bananeira do terreno baldio, como era linda com suas camadas castanhas, feixes verdes, exuberante de bichos e solidão, escorada nas calhas do vento. Os pais se abatiam porque não apresentava um sintoma, uma doença. Ressentidos com minha vida insubordinada. Tudo bem, eu havia cortado a testa cinco vezes nos últimos dois anos: uma ao imitar o Tarzan com a corda do pátio, a segunda ao brincar de amarelinha nas pedras de um rio, a terceira ao perseguir um amigo e não enxergar a quina da parede, a quarta ao escorregar e apunhalar a tampa da mesa, a quinta no pega-pega da escola. Somava trinta e cinco pontos até os nove anos, mas não chegava a ser motivo de preocupação. Lembro-me de ir para aula com resíduos da massinha do aparelho nos cabelos. Me investigaram e não descobriram o sentido da falta de sentido. Fingi bem.


(Texto publicado no Rascunho,

coluna Carpinejar, edição setembro de 2004)

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