quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

4/18/2006 08:31:30 AM

BAZAR DE CHANTAGENS

Pintura de Édouard Manet


Fabrício Carpinejar







A criança esperneia, xinga; o pai apenas a arrasta com delicadeza obstinada. O rosto paterno não observa os lados, não anuncia seu desespero, não se entrega aos curiosos. A criança desobedece. Freia os patins. Segura-se com afinco em todo obstáculo pela frente. Chuta as canelas. Solta tapas sem endereço. Grita absurdamente, abusivamente. Nem a coruja tem um pio tão anoitecido. Mas o pai ali, como se fosse normal, como se não fosse com ele, mantém a serenidade. Não se importa em ser assistido, tem a certeza que está correto. Mas sofre com o terremoto da boca, lamenta a acusação injusta de sua insensibilidade.


Não é um choro intuitivo, é um choro treinado, a manha de jogo e de poder. Não há pai ou mãe que não tenha suportado esse vexame em filas de mercado, restaurantes, lojas? Uma ironia, logo os pais que se repartem sem pensar, que se dividem generosamente e procuram oferecer uma filiação aberta e discutida. Logo eles que tiveram pais silenciosos e duros e decidiram não repetir o ciclo de lacunas.


O amor é uma vergonha. Na família, haverá de ser sempre uma vergonha porque envolve franqueza. O que traz honestidade significa enfrentamento. Quando adolescente sofria ao ser levado para festas de carro pelos pais. Pedia para que parassem duas quadras antes. Envergonho-me agora da minha própria vergonha, apressei em ser adulto e não ganhei nada com isso.


Na primeira contrariedade, ao não comprar um brinquedo ou um doce, o filho pula, provoca escândalo, humilha. A criança não aceita e berra. Não pede, manda.


Com temor do que os outros pensem dele, muitos pais acabam adquirindo o mimo, apesar da conta naufragar em vermelho. São derrotados pela aparência. São derrotados pelo susto da visibilidade. São derrotados pela impaciência. E pai ou mãe é paciência encarnada. Não dizer as verdades a qualquer hora, dizer no momento em que o filho estiver ouvindo.


Observava com orgulho aquela frieza do pai diante do seu menino embirrado. A frieza era firmeza de princípio. Ele não aceitou negociar o afeto. Não se rebaixou à chantagem. Mostrava que não ter tudo é poder escolher.


Seguiu puxando a criança com calma, domando o infortúnio. Cuidava para não machucar, mas conduzia com convicção para longe do pedido frustrado.


O menino foi se acalmando, foi cansando, foi perdendo público até entender que seu pai não pode ser comprado.

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